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Adestramento:


A ALEGRIA DE ADESTRAR
(experimente e não se arrependerá)

“Amizade e Proteção”

O moleque pega na pata do vira-lata e diz “Dá a pata”. Repete o gesto e a ordem por várias vezes. A seguir apenas toca levemente com sua mão na pata do cão e este, com um sorriso nos olhos (garanto que existe! ) põe sua pata sobre a mão do menino. O menino, sem nunca ter ouvido falar em psicologia canina, reflexo condicionado ou métodos de adestramento, conseguiu o que queria. Alegre e orgulhoso faz um carinho no amigo. E este também está alegre, por ter alegrado o menino.

Assim tudo começa no adestramento: alegria, companheirísmo, amizade, repetição, associação de palavras e gestos com os atos, recompensa e castigo (reprovação).

As considerações que vou fazer a respeito obviamente não são destinadas aos entendidos, aos adestradores, aos experientes no assunto, e sim, aos que tendo vindo assistir a este campeonato, começam a pensar que um dia, talvez, fosse interessante tentar adestrar um cão, preferivelmente um Pastor Alemão. O que eu quero é lhes dar um empurrãozinho!

Porque a preferência pelo Pastor Alemão? Porque, além da sua beleza, inteligência, altivez e extremo companheirismo, é um cão de mil e uma utilidades, com potencial para ser, dependendo do treinamento, um excelente guarda, um cão de polícia, de guerra, de alfândega, farejador de drogas e outros produtos, de avalanche, de competição nas mais variadas provas, de pastoreiro, de guia de cega, ou o mais dócil e encantador cão de companhia.

Os princípios básicos do adestramento inicial se aplicam a praticamente todas as raças caninas. Com pequenas diferenças, o Jardim da Infância” pode ser igual para todos. Mais tarde, nos cursos de especialização”, teremos que considerar as
características de cada raça. Dificilmente um Pit-Bull será um impassível guia de cego, um Setter um excelente cão de guarda, um Lulu da Pomerânia um eficiente cão de guerra. Poderá um Poodle tomar conta e defender um rebanho de ovelhas? Já dá para entender porque o Pastor Alemão é o meu preferido?

Mesmo entre os cães da mesma raça – e daqui para a frente só vamos nos referir ao Pastor Alemão – é preciso respeitar as aptidões do animal, suas preferências, sua “personalidade”. Os mais agitados e ativos não darão bons guias de cegos, os que ficam receosos com os trovões não serão guardas confiáveis nas noites de tempestade, ... e assim por diante. Daí se conclui que para escolher a “carreira” que seu pastor vai seguir é preciso, antes de mais nada, conhecê-lo bem. Você e seu cão vão formar uma dupla, uma parceria. É preciso prever suas reações, avaliar suas qualidades e limitações. O cão, por sua vez, terá que reconhecer em você um
grande companheiro, inicialmente de brincadeiras, depois de trabalho; um amigo em quem pode confiar, um chefe a quem deve obedecer e, mais tarde, proteger.

Quando filhote ele espera, de você, amizade e proteção. Mais tarde lhe dará em dobro essa amizade e proteção, além de uma fidelidade e dedicação insuperáveis.
Voltemos ao “Jardim da Infância”; o cãozinho, com 2,3,4 meses, está lá para brincar, não tem a obrigação de aprender nada. Mas será útil e conveniente que desde o mais cedo possível associe certas palavras a atos praticados espontaneamente. Se você percebe que o bichinho vai sentar (por sua vontade), diga imediatamente –"senta” e o acaricie depois de efetivado o movimento. O mesmo para o ato de deitar (diga "deita”), de vir em sua direção (“aqui”), de andar ao seu lado (" junto”). Aos poucos ele vai associando as palavras ( e gestos que podem acompanhá-los) aos atos. É surpreendente como esse aprendizado, incentivado com carinho e suave tom de voz, se processa rápido e alegremente.

Nesta fase nenhum castigo é permitido, a não ser um breve ”não” a um ato indesejado. O chamado ”aqui” deve sempre estar associado a carinho ou recompensa, nunca a castigos ou repreensões. Nunca o chame para a seguir pegá-lo e dar-lhe um banho, que para ele é um castigo. Pode associar o “aqui” a coisas desagradáveis, o que vai atrasar seu aprendizado.

Qual a melhor idade para deixar o jardim da infância e ir para o primário e começar a Ter aulas de verdade? Uns dizem 4 meses, outros 7 ou 8. Na minha opinião, quanto antes em relação a obediência, um pouco mais tarde para as primeiras lições de faro, e só bem depois para as provas de coragem (“pegar”, defender seu parceiro, etc). Embora muito discordem, só começo a treinar meus cães para a “defesa” depois dos 12 meses de idade, as vezes com 14 ou 16, só quando tenho a convicção de que eles estão seguros, auto-confiantes no seu poder e demonstrarem vontade e disposição para esse trabalho. Iniciar em treinamento antes do amadurecimento do cão pode gerar inseguranças, que posteriormente se traduzirão por falhas frequentes ou agressividade inadequada (“mordedor de medo”). Nunca tive pressa e sempre obtive ótimos resultados! É opinião pacifica que a “obediência” é a primeira matéria a ser ensinada na curso primário. O aprendizado será sempre baseado na repetição dos exercícios, na associação de palavras e gestos com os atos que desejamos que o cão execute, com a recompensa e com o castigo. Esse conceito aplica-se ao adestramento de todos os animais, cães, tigres, focas ou elefantes.

Antes que alguma sociedade protetora dos animais me processe por recomendar castigos aos cães indisciplinados ou desobediente, quero deixar bem claro o que considero castigo apropriado para o pastor que quer nos confrontar ou desobedecer. Castigo é uma cara amarrada que demonstra descontentamento (e não raiva), uma reprimenda severa, um “não” áspero e firme, um puxão na guia e coleira (enforcador), uma chacoalhada na pele da parte superior do pescoço. Pode Ter a certeza que será suficiente, o aluno vai entender perfeitamente.

A recompensa, que de ser amplamente usada, pode ser uma palavra afetuosa dita da maneira suave, um “muito bem” entusiasmado (o tom da voz é muito importante), um sorriso, um afago, uma coçadinha atrás da orelha, uma palmadinha na espádua, um biscoito de carne,.... Os carinhos e reprimendas devem ser dosados de acordo com o trabalho executado ou a falta cometida, a idade do cão, o seu estágio de aprendizado e a sua sensibilidade. Só a experiência vai lhe dar a medida certa. É fato conhecido que quando uma doceira dá a receita para outra nem sempre o doce fica igual. O adestrador vai ter suas próprias receitas, suas sem se desviar dos conceitos básicos que a experiência aprovou. Certamente posso confirmar que beijo sua boca ou pé no saco são totalmente desaconselháveis.

Terminado curso primário, quando já se estabeleceu entre o homem e o cão uma relação estreita de amizade, de confiança, de cumplicidade mesmo, quando foi definido o chefe da matilha de autoridade incontestável, aí sim chegou o momento de partir para um aprendizado mais avançado. Não tenho aqui espaço suficiente para discorrer sobre os diferentes, digamos assim, “cursos de especialização”. Devido as condições existentes atualmente o de cão de guarda é mais procurado. Apenas mais algumas palavras a respeito. Nessa função, em sua casa, o cão deve preventivamente impedir a aproximação de um estranho, latindo, rosnando, mostrando os dente ou simplesmente {mas também com eficácia) ficando estático, com olhar fixo, olho no olho, mostrando claramente que está ali para guardar seu território. Deve ser incentivado com palavras previamente escolhidas (“atenção”, “cuida”,...) eu com uma imitação de rosnando, em tom baixo e grave. Este me parece ser o melhor, identificando-se com a seriedade do momento. Sua presença e seu incentivo vão dar-lhe segurança. Aprenderá e logo fará isso sozinho, pois já teve sua aprovação. No entanto, se você receber um amigo, o cão deverá estar apto a considerá-lo com tal, ao perceber que é recepcionado amigável el e alegremente O Pastor Alemão. pela inteligência, temperamental e caráter. aprende muito facilmente a ser mordomo e guarda da sua casa, conforme a situação que se apresente. Na minha só prendo os cães no canil quando vem uma pessoa estranha fazer algum serviço; quando meus amigos ou parentes chegam procuro até incentivar um contato amigável. Um conselho final: não acreditem que cachorro preso na corrente é que fica bravo". O cão deve circular, pelo maior tempo possível, em todo o espaço externo da casa, marcando e guardando seu território. O cão que fica preso por uma corrente considera como seu território apenas aquela área limitada pelo comprimento da mesma. Ao ser solto ficará completamente inseguro e, sob uma ameaça, voltará para o seu canto bem depressa.

Há anos passados tive a alegria de acompanhar, desde filhotes, 2 animais que foram por mim treinados, adestrados e conduzidos. Um deles venceu o Campeonato Brasileiro de Adestramento (Jupp do Império Egípcio) e o outro (Ripp da Serra do Etapeti) foi o vencedor do Campeonato Brasileiro de Estrutura. Jupp e Ripp fazem parte de minhas recordações, de forma indelével. Agora que esses dois grandes amigos já não me escutam, quero confessa um segredo: a vitória no adestramento foi a que mais me recompensou, pois foi resultado de meu trabalho em parceria, homem e cão procurando um entendimento perfeito onde um simples olhar podia ser uma ordem ou um agradecimento, um breve contato a
materialização da amizade. Não importa se para competir ou apenas para ter um excelente amigo e companheiro, adestre um cão. Experimente e não se arrependerá!

Dr. Miguel Bove Neto





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